Amanhã a União Europeia deverá publicar os primeiros resultados dos ‘stress tests’ a quase uma centena de bancos europeus em que se incluem os nossos principais bancos. Esta iniciativa, na sequência de uma similar realizada nos EUA, no rescaldo da crise financeira de 2008, visa contribuir para uma maior estabilização e normalização dos mercados interbancários ainda com níveis de liquidez insuficientes e extraordinariamente dependente da acção do Banco Central Europeu, que continua a assumir o papel que deveria caber ao mercado, aceitando depósitos dos bancos excedentários e emprestando aos bancos mais carentes de fundos. Mesmo que os resultados se revelem globalmente favoráveis, e já existem muitas criticas relativamente à benignidade dos testes, sendo exemplo corrente o caso da dívida grega que aparentemente será testada com um desconto inferior aquele com que presentemente se apresenta em mercado, creio que não se deverá alimentar muita expectativa quanto ao seu contributo para resolução do problema estrutural de desconfiança dos mercados. A presente crise está bem para além dos sistemas bancários europeus sendo, nos seus contornos mais essenciais, uma crise de dívida soberana que não se resolve com ‘stress tests', mas antes com o esforço intenso de reequilíbrio orçamental, sobretudo dos países mais fragilizados e com evidências claras de vontade e sobretudo de desenvolvimento de mecanismos de defesa e coesão do euro. Sublinhe-se ainda que os testes, sobretudo quando em Agosto forem divulgados os respectivos resultados de forma mais desagregada, irão certamente revelar, em maior ou menor amplitude, necessidades adicionais de capital em muitos bancos, em linha com os resultados de vários estudos recentes entretanto divulgados, o que coloca um problema sério já que os Estados, muito pressionados pela redução dos défices orçamentais, não terão os graus de liberdade para actuarem em seu auxílio como o fizeram há dois anos. Esta exiguidade de capital poderá criar, assim, novos pontos de turbulência a nível de controlo accionista e de uma vaga de aquisições. Estando convicto de que os principais bancos nacionais deverão evidenciar uma razoável robustez, convicção que assenta na grande prudência a nível de risco que tem caracterizado a sua gestão e que os fez passar praticamente incólumes da crise de 2008, no sentido mais justo do termo, o de não terem exposições relevantes nas áreas que geraram maiores perdas a muitos bancos internacionais, apesar de não terem escapado à crise de liquidez do sistema que lhe seguiu, sinto que neste particular das necessidades de capital a situação é delicada. E talvez fosse importante antecipar o que aí pode vir, identificando-se estratégias de actuação que sejam proactivas e não meramente defensivas, ao sabor dos acontecimentos. António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School
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