A gastronomia e o vinho têm-me proporcionado, como certamente a muitos dos leitores, momentos inesquecíveis, de prazer, de partilha e de convívio. Bastar-me-ia, porventura, ter já experimentado sensações novas e deslumbrantes em pratos criados por um grande chefe, uma harmonia sublime no aroma e no travo em vinhos pacientemente desenvolvidos por um grande produtor e enólogo, para ficar satisfeito e agradecido. Contudo e como português acho que é um desperdício termos conseguido, quase silenciosamente, construir um património gastronómico e vinícola valioso e apenas nos contentarmos com o seu usufruto. E assim chegamos a José Bento dos Santos, a quem poderíamos ficar reconhecidos e agradecidos pelo conhecimento único que tem sabido disseminar da gastronomia não só portuguesa como internacional, pelo entendimento sábio e clarividente de integrar a gastronomia e o vinho num conceito mais largo e verdadeiro de cultura e património dos povos, pela sua obra enquanto produtor de grandes vinhos, sem nenhuma concessão à facilidade, com a visão e a perseverança de um artista que cria obras e não apenas vinhos, sem facilíssimos, criando impressões duradouras que passam a fazer parte da nossa memória e história colectiva, bem para além das marcas passageiras de um copo ou de um momento. Mas devemos-lhe bem mais, ao mesmo tempo que vamos desperdiçando o seu esforço, batendo-se, como quase ninguém, para colocar a nossa gastronomia e os nossos vinhos como um desígnio estratégico de afirmação e promoção de Portugal no mundo, como elemento de valorização da nossa atractividade turística. Como refere com frequência e baseado no calcorrear de mundo e de vivências concretas de contacto com casos de sucesso, temos hoje uma geração de chefes de grande qualidade, que estão a reinventar um identidade gastronómica nacional e produtores de vinho que ombreiam com o que de melhor se faz nos países de referência. Precisamos é de ter capacidade de exposição de uns e outros, de ter dois ou três casos de manifesto reconhecimento internacional que o resto virá por acréscimo. Olhemos para o caso da Espanha e veremos como se conseguem resultados com uma estratégia com mais de 20 anos, porfiadamente continuada independentemente dos Governos. À escala, porque não temos a dimensão, recursos e os demais vectores de reputação dos nossos vizinhos, poderemos criar o nosso espaço de afirmação e atractividade internacional. Em alternativa, podemos continuar alegremente a celebrar quase em segredo mais um notável restaurante ou mais um grande vinho. José Bento dos Santos continuará a encantar os seus amigos e a ser uma fonte de conhecimento, experiência e conselho desperdiçada, no meio de políticas públicas efémeras, pouco corajosas e sem visão de futuro.