Domingo, 31 de Outubro de 2010

GESTORES PÚBLICOS

Fruto das circunstâncias, provavelmente não poderia ser de outra forma. À bruta e igual para todos, assim foram decididos e comunicados os cortes de despesas no sector empresarial do Estado.

No final da reunião, invulgarmente breve, com o Ministro das Finanças, em que conheceram mais em detalhe os cortes que teriam de fazer nas respectivas empresas, os gestores públicos saíram silenciosos. A verdade é que foram demitidos sem o terem sido, deixaram em rigor de ser gestores, o accionista único, Estado, tomou os seus lugares e aqueles passaram a ser meros executores.

Certamente que em várias empresas tinha havido um esforço sério e consistente de racionalização, de contenção de custos e de optimização de proveitos e, num ápice, foram equiparadas a outras em que o laxismo e a irresponsabilidade têm campeado. Líderes de empresas que tinham conseguido colocar a casa em ordem, que tinham conseguido motivar equipas, estimular a performance de muitos, criado expectativas justas de futuro, deixaram de poder fazer qualquer coisa que não seja uma palmada nas costa ou uma mera palavra de incentivo.

Muitos dirão que é apenas o que se passa no Estado, mas a verdade é que as pessoas do sector empresarial do Estado não são funcionários públicos, não tem o mesmo quadro de segurança de emprego. Acresce que em vários casos as empresas do sector empresarial do Estado competem directamente e com resultados, com outras empresas privadas que não se têm de reger, felizmente para elas, por regras similares. Como resultado prático, porque estas medidas têm efeito na operacionalidade das empresas, na motivação dos seus trabalhadores, na retenção dos melhores quadros e na sua agilidade de gestão, teremos mais uma silenciosa transferência de riqueza do sector público para o sector privado

E como se não bastasse, está agora também no horizonte mais uma medida, apenas e só populista, o de limitar ao ordenado do Presidente da República os vencimentos máximos que podem ser auferidos pelos gestores públicos. Esta medida, sendo aprovada, é inaceitável caso seja implementada aos mandatos em curso, transformando em muitos casos o que seria uma partilha de sacrifícios, aceitáveis, num imposto indirecto desmesurado. Mas, paradoxalmente, talvez esteja certa para os tempos vindouros e para o perfil que se pretende para o gestor público no qual o esforço, visão e competência são variáveis relativamente irrelevantes para o resultado final. Mas sendo assim, é também bom que se esqueça, de vez, a retenção de talento no sector empresarial do Estado. Ninguém em seu absoluto juízo, a menos que em desespero, inebriado por estatuto e aparente poder, ou imaginando já a captação de vantagens paralelas, aceitará estas condições financeiras e de gestão.

 

António Gomes Mota

publicado por angulosdevisao às 13:14
link | comentar | favorito
4 comentários:
De A Mendes a 31 de Outubro de 2010 às 22:32
Quase poderia ser um bom onto de vista caso conseguisse indicar 20 casos de empresas/institutos onde se verifique o que transcrevo infra:
"em vários casos as empresas do sector empresarial do Estado competem directamente e com resultados, com outras empresas privadas que não se têm de reger".
O Estado tem um grande nº de empresas que são unicamente gestoras de custos e de investimentos com grandes dúvidas na qualidade das projecções desses investimentos. Veja-se o despesismo do modelo de gestão das Águas de Portugal. Muito haveria para escrever, mas trata-se de um ponto de vista dos gestores que OBJECTIVAMENTE não têm espaço no sector privado porque simplesmente...não existe procura para os seus serviços!


De Anamar a 6 de Novembro de 2010 às 20:55
Como exemplo de um Grupo de empresas cujo unico accionista, à data, é o Estado, temos o Grupo CTT. Os CTT vivem há anos em total concorrência na gama de Correio Urgente e Estafetagem. As empresas são conhecidas - DHL, SEUR, Chronopost, MRW,TNT, NACEX, todas a operar em Portugal.... A partir de Janeiro de 2011 o mercado está totalmente liberalizado. Este Grupo tem contratado gestores do sector privado nos ultimos anos, adquirido empresas do sector privado em Portugal e no estrangeiro, todas em serviços complementares da distribuição e correio digital. E é com surpresa que um Grupo que se encontra totalmente empenhado e em esforço de consolidação há anos, que tem dado milhões de euros em dividendos ao Estado, e se prepara para sobreviver num mercado feroz como que é o da logistica e distribuição recebe como prémio do accionista uma mensagem de "funcionalização" dos serviços, como se de uma Direcção da Administração Pública se tratasse. Vai ser a morte da empresa. Só não sai, quem não conseguir. Nas empresas entretanto adquiridas pelos CTT, todas do sector privado, ninguém se revê neste quadro de 'Função Pública'. É um fato que não serve a ninguém. São anos de 'discurso empresarial' e de esforço orientado a resultados, deitados pela janela fora. Face à brilhante orientação do accionista só há duas interpretações possiveis:
a) Confirmação de que o Estado é totalmente incompetetente enquanto gestor, não realizando sequer uma análise objectiva sobre o mercado em cada umas das empresas está inserido e tratando todas pela mesma bitola;
b) O desespero por dinheiro imediato é tão grande, que pouco lhe interessa o impacto que tais medidas irão provocar no Grupo a curto prazo. Porque os dividendos irão cair a pique e daqui a um ano poderá passar de empresa lucrativa a deficitária.
Os privados esfregam as mãos de contentamento - com o Grupo CTT asfixiado, mais espaço terão para expandir os seus serviços.
Entretanto no grupo CTT os Quadros Qualificados - Técnicos e Directores Comerciais, de Distribuição, de Marketing, de Rede de Retalho, Economistas, Engenheiros de Produção, Técnicos e Gestores de Sistemas de Informação (PROFISSÕES DE MERCADO) tratam de procurar trabalho noutro sector e bem longe do Estado. É só uma questão de tempo.


Comentar post

mais sobre mim

pesquisar

 

Novembro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
23
24
25
26

27
28
29
30


posts recentes

MIGUEL MONTEIRO

ARRENDAR

BOLONHA

DIVULGAÇÃO DO CASO BCP

TAXAS E FUTURO

DONATIVOS E IRS

USURA

AUDITORES

GESTORES PÚBLICOS

GESTÃO PRO BONO

arquivos

blogs SAPO

subscrever feeds