Com o mês de Setembro praticamente a fechar, podemos constatar que o nosso principal índice bolsista, o PSI – 20, quase não variou em relação ao final do mês anterior.
Esta constatação é particularmente interessante se nos lembrarmos do que aconteceu, neste mesmo mês, aos spreads dos títulos da dívida pública de longo prazo que dispararam neste mesmo período, ao ponto de estarmos hoje a pagar, de acordo com os dados das últimas emissões, mais de 4% relativamente ao que pagam os títulos congéneres da Alemanha.
Quase apetece dizer que os investidores confiam bem mais nas empresas portuguesas do que no Estado português ou, de outro modo, que as empresas portuguesas mantêm um perfil interessante de rendibilidade de longo prazo apesar do Estado de que são originárias.
Esta análise, apesar de naturalmente simplista, aponta para algumas realidades interessantes. A primeira é da internacionalização, através da qual muitas grandes empresas se tornaram muito menos dependentes dos negócios e lucros gerados em Portugal. Empresas como a CIMPOR, EDP, JERÓNIMO MARTINS, MOTA – ENGIL, apenas para algumas, têm uma parte importante das suas receitas e lucros gerados fora de Portugal. E neste domínio apetece também dizer que se fossem racionais muitas delas mudariam a sua sede para outro qualquer país Europeu, pois no acesso ao crédito e particularmente no seu custo são fortemente penalizadas com o rating do seu país. Paradoxalmente, se fossem antes empresas croatas ou búlgaras, por exemplo, beneficiariam neste momento de um melhor risco país, e quem o seria capaz de afirmar, há meia dúzia de anos.
Por outro lado, muitas empresas portuguesas mostraram nestes últimos dois anos uma invulgar resiliência a uma conjuntura económica adversa, revelando capacidade de ajustamento, reestruturação e racionalização e sabendo encontrar novos mercados ou explorando melhor aqueles em que já marcavam presença.
Em muitas empresas portuguesas encontramos excelentes exemplos que deveriam inspirar a governação: capacidade de antecipação de um horizonte mais adverso e desencadeamento de estratégias de reacção rápidas, firmes e consistentes, eliminando o acessório para preservar o essencial, sustentando o curto prazo, de modo a manter uma perspectiva risonha de futuro a longo prazo.
Nesta crise em que vivemos tem-se falado muito pouco de empresas, dos seus constrangimentos e dificuldades. Mesmo que não tenhamos grandes condições orçamentais para lhes canalizar melhores apoios, ao menos saibamos reequilibrar as contas e voltar ao clube dos países com credibilidade externa, porque se não o fizermos nem mesmo a empresas serão indefinidamente capazes de construir à parte o seu futuro e o PSI acabará por mostrar essa triste realidade.
António Gomes Mota