Sábado, 5 de Março de 2011

BOLONHA

Bolonha, ao reduzir para três anos a generalidade das licenciaturas, potenciava, em teoria, a oferta de dois graus académicos (licenciatura e mestrado) que se ajustariam a níveis de exigência diferenciados no mercado de trabalho e a promoção de uma maior mobilidade inter-cursos e escolas de um ciclo para o outro, possibilitando novas vivências, objectivos e interesses. O tempo de implementação já decorrido possibilita retirar algumas ilações, tendo como restrição o meu ponto de observação, o de uma boa escola de gestão com uma sólida tradição de empregabilidade.

A primeira é a da ilusão da criação de um mercado de trabalho diferenciado. O contacto com as empresas recrutadoras mostra que tal mercado para os novos licenciados é cada vez mais estreito. E muitas empresas transferem recrutamentos de licenciados para mestres não porque considerem insuficiente a formação mais básica dos primeiros, adequada para múltiplas funções, mas porque notam nestes insuficiências em termos de maturidade, fruto da idade com que se licenciam. Mas, recrutando à saída do mestrado, as empresas enfrentam outros problemas, como os da sobre qualificação e o das expectativas dos jovens mestres, quanto aos desafios das funções que vão desempenhar.

A segunda é o da descriminação económica na passagem de um ciclo para o outro. Sendo as propinas de mestrado mais elevadas, tal penaliza sobretudo os alunos de nível médio oriundos de extractos socioeconómicos mais baixos, já que os bons alunos terão provavelmente acesso a incentivos da escola.

A terceira é a de que a mobilidade é reduzida. A maioria dos alunos prosseguem estudos na escola em que a realizaram a licenciatura, seja por proximidade afectiva ou pelo esforço das escolas na retenção dos seus próprios alunos, apesar de na área de gestão haver licenciados noutras áreas que procuram, através do mestrado, uma empregabilidade que sentem não existir na área de proveniência.

A quarta é a de que muitos alunos optam por mestrados mais especializados por gosto académico quando, no passado, a opção pós graduada era já fruto de um contacto e vivência profissional.

A quinta é a de que a sequência directa licenciatura e mestrado diminui o valor do desempenho na licenciatura. Os alunos vão percepcionando que uma classificação mediana no 1º ciclo (desde que suficiente para se ingressar no mestrado) pode ser depois corrigida com uma boa performance no mestrado, que os recrutadores olharão com mais atenção por ser o curso mais recente.

O cenário evolutivo mais provável é o da cada vez maior generalização do percurso contínuo licenciatura e mestrado e a irreversível desvalorização do grau de licenciado. Os novos mestres passarão a ser os licenciados de sempre e não sei, neste processo, se ficaremos melhor do que estávamos antes.

 

António Gomes Mota

publicado por angulosdevisao às 21:56
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