De regresso de férias, partilho com os leitores dois livros que li nestas últimas duas semanas e que embora versando temas muito diferentes, poderão ser uma boa opção de leitura. O primeiro tem o título de "Rice Wine with the Minister" e é da autoria de Andrew Kakabadze, uma das incontornáveis referências na investigação mundiais nas áreas da liderança e governo corporativo. O seu título decorre de uma experiência do autor, que se viu confrontado numa reunião na China com sucessivas saudações de participantes na mesma e que, a cada uma, era compelido a beber um cálice de maotai (‘rice wine'), licor chinês bem conhecido pela sua alta concentração alcoólica, que naturalmente o deixou em muito mau estado e que ilustra uma dimensão cultural relevante numa negociação internacional numa cultura diferente da nossa. E o livro é, justamente, uma viagem fascinante ao mundo da liderança transcultural explorando em 21 capítulos ( ‘shots'), as múltiplas dimensões em que o líder terá que ter em conta as características da cultura, costumes e especificidades de cada região para ser bem sucedido local ou globalmente. O livro recorre a inúmeros exemplos, ilustrações, resultados de estudos empíricos, numa escrita atractiva e de muito fácil leitura. A dimensão académica de Kakabdaze está bem presente no modo como organiza e sintetiza ideias e conceitos, mas de um modo vivo, dinâmico, que transforma o livro numa leitura ao mesmo tempo muito aprazível e intelectualmente estimulante. O segundo livro editado em no ano passado, e recipiente do prémio de livro do ano do Financial Times, Lords of Finance: "The Bankers Who Broke the World" de Liaquat Ahamed e que apenas agora tive oportunidade de ler, é uma descrição fascinante do papel e actuação dos responsáveis dos bancos centrais dos EUA, França, Alemanha e Inglaterra na violenta crise de liquidez que seguiu ao crash bolsista de 1929. Para além de descrever com detalhe o desenvolvimento do sistema financeiro desde o fim da I Guerra Mundial até à crise de 1929 - 1931, retrata sobretudo e de forma notável a acção daqueles personagens, dos bastidores às intervenções públicas e cruzando o ‘background' de cada um, com o que pensavam e como viram a crise, relevando o modo como a Europa então via os EUA e vice-versa e mostrando ainda o efeito na crise das falhas graves na cooperação que se verificaram entre aquelas figuras. Mesmo analisando uma realidade que dista mais de 80 anos dos dias de hoje, há elementos perturbadoramente similares e, sobretudo, ficam algumas notas que me parecem indeléveis, como a importância da cooperação internacional na prevenção e resolução de crises. Espero que estas sugestões possam ser úteis e ofereçam leituras tão estimulantes como aquelas que a mim me proporcionaram. António Gomes Mota, Professor na ICSTE Business School
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A gastronomia e o vinho têm-me proporcionado, como certamente a muitos dos leitores, momentos inesquecíveis, de prazer, de partilha e de convívio. Bastar-me-ia, porventura, ter já experimentado sensações novas e deslumbrantes em pratos criados por um grande chefe, uma harmonia sublime no aroma e no travo em vinhos pacientemente desenvolvidos por um grande produtor e enólogo, para ficar satisfeito e agradecido. Contudo e como português acho que é um desperdício termos conseguido, quase silenciosamente, construir um património gastronómico e vinícola valioso e apenas nos contentarmos com o seu usufruto. E assim chegamos a José Bento dos Santos, a quem poderíamos ficar reconhecidos e agradecidos pelo conhecimento único que tem sabido disseminar da gastronomia não só portuguesa como internacional, pelo entendimento sábio e clarividente de integrar a gastronomia e o vinho num conceito mais largo e verdadeiro de cultura e património dos povos, pela sua obra enquanto produtor de grandes vinhos, sem nenhuma concessão à facilidade, com a visão e a perseverança de um artista que cria obras e não apenas vinhos, sem facilíssimos, criando impressões duradouras que passam a fazer parte da nossa memória e história colectiva, bem para além das marcas passageiras de um copo ou de um momento. Mas devemos-lhe bem mais, ao mesmo tempo que vamos desperdiçando o seu esforço, batendo-se, como quase ninguém, para colocar a nossa gastronomia e os nossos vinhos como um desígnio estratégico de afirmação e promoção de Portugal no mundo, como elemento de valorização da nossa atractividade turística. Como refere com frequência e baseado no calcorrear de mundo e de vivências concretas de contacto com casos de sucesso, temos hoje uma geração de chefes de grande qualidade, que estão a reinventar um identidade gastronómica nacional e produtores de vinho que ombreiam com o que de melhor se faz nos países de referência. Precisamos é de ter capacidade de exposição de uns e outros, de ter dois ou três casos de manifesto reconhecimento internacional que o resto virá por acréscimo. Olhemos para o caso da Espanha e veremos como se conseguem resultados com uma estratégia com mais de 20 anos, porfiadamente continuada independentemente dos Governos. À escala, porque não temos a dimensão, recursos e os demais vectores de reputação dos nossos vizinhos, poderemos criar o nosso espaço de afirmação e atractividade internacional. Em alternativa, podemos continuar alegremente a celebrar quase em segredo mais um notável restaurante ou mais um grande vinho. José Bento dos Santos continuará a encantar os seus amigos e a ser uma fonte de conhecimento, experiência e conselho desperdiçada, no meio de políticas públicas efémeras, pouco corajosas e sem visão de futuro.