Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Bancos em teste

Amanhã a União Europeia deverá publicar os primeiros resultados dos ‘stress tests’ a quase uma centena de bancos europeus em que se incluem os nossos principais bancos.


Esta iniciativa, na sequência de uma similar realizada nos EUA, no rescaldo da crise financeira de 2008, visa contribuir para uma maior estabilização e normalização dos mercados interbancários ainda com níveis de liquidez insuficientes e extraordinariamente dependente da acção do Banco Central Europeu, que continua a assumir o papel que deveria caber ao mercado, aceitando depósitos dos bancos excedentários e emprestando aos bancos mais carentes de fundos.

 

Mesmo que os resultados se revelem globalmente favoráveis, e já existem muitas criticas relativamente à benignidade dos testes, sendo exemplo corrente o caso da dívida grega que aparentemente será testada com um desconto inferior aquele com que presentemente se apresenta em mercado, creio que não se deverá alimentar muita expectativa quanto ao seu contributo para resolução do problema estrutural de desconfiança dos mercados.

 

A presente crise está bem para além dos sistemas bancários europeus sendo, nos seus contornos mais essenciais, uma crise de dívida soberana que não se resolve com ‘stress tests', mas antes com o esforço intenso de reequilíbrio orçamental, sobretudo dos países mais fragilizados e com evidências claras de vontade e sobretudo de desenvolvimento de mecanismos de defesa e coesão do euro.

 

Sublinhe-se ainda que os testes, sobretudo quando em Agosto forem divulgados os respectivos resultados de forma mais desagregada, irão certamente revelar, em maior ou menor amplitude, necessidades adicionais de capital em muitos bancos, em linha com os resultados de vários estudos recentes entretanto divulgados, o que coloca um problema sério já que os Estados, muito pressionados pela redução dos défices orçamentais, não terão os graus de liberdade para actuarem em seu auxílio como o fizeram há dois anos. Esta exiguidade de capital poderá criar, assim, novos pontos de turbulência a nível de controlo accionista e de uma vaga de aquisições.

 

Estando convicto de que os principais bancos nacionais deverão evidenciar uma razoável robustez, convicção que assenta na grande prudência a nível de risco que tem caracterizado a sua gestão e que os fez passar praticamente incólumes da crise de 2008, no sentido mais justo do termo, o de não terem exposições relevantes nas áreas que geraram maiores perdas a muitos bancos internacionais, apesar de não terem escapado à crise de liquidez do sistema que lhe seguiu, sinto que neste particular das necessidades de capital a situação é delicada. E talvez fosse importante antecipar o que aí pode vir, identificando-se estratégias de actuação que sejam proactivas e não meramente defensivas, ao sabor dos acontecimentos.


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António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School

publicado por angulosdevisao às 10:00
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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

‘Gracias, hermanos’

A Espanha venceu justamente o campeonato do mundo de futebol. Fê-lo, antes de mais, porque soube construir uma ideia de equipa, na qual as personalidades individuais apenas reforçaram o colectivo, sem estrelas, sem egos e sem deslumbramentos.


Não houve casos no estágio e durante a competição, ninguém pediu mais minutos, mais protagonismo, mais destaque. Cada jogador teve o condão de se diluir no valor e na pujança da equipa, ajudando os outros a serem melhores. Bastaria ver na final o modo como cada jogador que ia sendo substituído incentivava o substituto para se perceber a cadeia de proximidade e cumplicidade entre todos.

 

Fê-lo também porque teve a sorte (ou talento) de contar com um treinador que sabiamente somou ao trabalho do antecessor, campeão europeu, apurando e refinando o que herdou, sem necessidades de afirmação pessoal, de apenas fazer diferente para se individualizar. A sua serenidade no momento do triunfo, espelha bem quase 50 anos de vida no terreno de jogo e no banco em que terá passado por muito e conhecido quase tudo, deixando apenas transparecer a noção do dever cumprido e libertando a glória para os seus jogadores e para o seu país.

 

Fê-lo ainda porque havia uma nação mobilizada, com convicção e entusiasmo, no apoio à selecção, orgulhosa de si e da sua posição no mundo e encontrando ao mesmo tempo naqueles jogadores e sobretudo naquela equipa a solução mágica para por um instante fugir da violenta crise que lhes afecta o dia-a-dia e das autonomias independentistas que lhes dilaceram o amanhã.

 

Fê-lo, por último e certamente por capacidades e excelência técnico-táctica que não estou minimamente habilitado a comentar, mas que, creio, no futebol como na vida, marginalmente ajudam mas não fazem decisivamente a diferença no resultado final.

 

Triste fado o nosso, sem ideia de equipa, mas cheia de personalidades e egos, sem liderança que não se veja, mas se sinta, actue e mobilize, sem fio condutor que ligue o passado ao futuro, sempre a inventarem-se novos projectos e novos amanhãs, sem nação entusiasmada e convicta, que se limita a partilhar com os nossos vizinhos do lado as agruras da crise e as fragilidades de governos e oposições. Domingo à noite refugiei-me na condição de habitante da ibéria para sentir também, mesmo que fugaz e levemente, o sabor da vitória que, já o sabemos há muito, é apenas espuma nas nossas vidas, mas que por ser doce e reconfortante, aviva o brilho nos olhos quando acordamos de manhã para um novo dia.

 

Mas já sem espuma, e dizem-no vários estudos que a vitória no campeonato irá impactar positivamente no PIB espanhol e por tabela também algo no nosso, o que reforça a vontade de dizer, ‘gracias hermanos'.


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António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School

publicado por angulosdevisao às 10:00
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