A Espanha venceu justamente o campeonato do mundo de futebol. Fê-lo, antes de mais, porque soube construir uma ideia de equipa, na qual as personalidades individuais apenas reforçaram o colectivo, sem estrelas, sem egos e sem deslumbramentos. Não houve casos no estágio e durante a competição, ninguém pediu mais minutos, mais protagonismo, mais destaque. Cada jogador teve o condão de se diluir no valor e na pujança da equipa, ajudando os outros a serem melhores. Bastaria ver na final o modo como cada jogador que ia sendo substituído incentivava o substituto para se perceber a cadeia de proximidade e cumplicidade entre todos. Fê-lo também porque teve a sorte (ou talento) de contar com um treinador que sabiamente somou ao trabalho do antecessor, campeão europeu, apurando e refinando o que herdou, sem necessidades de afirmação pessoal, de apenas fazer diferente para se individualizar. A sua serenidade no momento do triunfo, espelha bem quase 50 anos de vida no terreno de jogo e no banco em que terá passado por muito e conhecido quase tudo, deixando apenas transparecer a noção do dever cumprido e libertando a glória para os seus jogadores e para o seu país. Fê-lo ainda porque havia uma nação mobilizada, com convicção e entusiasmo, no apoio à selecção, orgulhosa de si e da sua posição no mundo e encontrando ao mesmo tempo naqueles jogadores e sobretudo naquela equipa a solução mágica para por um instante fugir da violenta crise que lhes afecta o dia-a-dia e das autonomias independentistas que lhes dilaceram o amanhã. Fê-lo, por último e certamente por capacidades e excelência técnico-táctica que não estou minimamente habilitado a comentar, mas que, creio, no futebol como na vida, marginalmente ajudam mas não fazem decisivamente a diferença no resultado final. Triste fado o nosso, sem ideia de equipa, mas cheia de personalidades e egos, sem liderança que não se veja, mas se sinta, actue e mobilize, sem fio condutor que ligue o passado ao futuro, sempre a inventarem-se novos projectos e novos amanhãs, sem nação entusiasmada e convicta, que se limita a partilhar com os nossos vizinhos do lado as agruras da crise e as fragilidades de governos e oposições. Domingo à noite refugiei-me na condição de habitante da ibéria para sentir também, mesmo que fugaz e levemente, o sabor da vitória que, já o sabemos há muito, é apenas espuma nas nossas vidas, mas que por ser doce e reconfortante, aviva o brilho nos olhos quando acordamos de manhã para um novo dia. Mas já sem espuma, e dizem-no vários estudos que a vitória no campeonato irá impactar positivamente no PIB espanhol e por tabela também algo no nosso, o que reforça a vontade de dizer, ‘gracias hermanos'. António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School
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